13.7.16

Sinto as vértebras descontraírem-se num espasmo
de séculos, a boca secar no líquido amniótico
de todas as ausências; sinto o equilíbrio
complicar as frases ulteriores como galhos frágeis.
O pior já passou. As tuas mãos de lua inferior
minguam perante o soberano rigor do amor,
As tuas palavras tecnológicas e superiores
só conseguem definir a linha lenta do sismo.
O que brota e germina na terra das aflições
esburaca-me o peito como uma broca de magma,
aparafusa uma placa de cimento em todas as ilusões.
Já me servia do teu corpo apesar da noite
com toda a contenção própria dos perdidos

que caminham sem conhecer o interior dos vulcões.

8.1.16



Apoteose, depois silêncio. Envelhecem
os soníferos e as alegrias, as alergias,
os sintomas e as reivindicações tardias.
No quadro que assinala o fim da aventura
marco, a negro, a gritante sensaboria.
Dores que recusei olhando para o lado
sob as arcadas frias de São Paulo
e das almofadas cálidas do vento.
Chego ao horizonte por percalços grossos
que a seu tempo ajuizei alijando o corpo
do peso entristecedor da escuridão.
Posso, por fim, calar-me de secura.
Onde guardaste os doces, merencórios dedos,
esses brinquedos gastos, vivo agora.

26.10.15


O destino tem dois volts. Lenços encolhem-se.
Sobre o cais reparto beijos em partes ambíguas.
Escolho os mais feios. Penso até abortar a encomenda
de gelo. De nada servirá fechar-me num cofre.
Experimento a bicicleta encostada ao barco.
Como ninguém se descalça, pedalo para longe
até sentir, recônditos, os rins e os pulmões.
Deixo o pó assentar nas mãos. Largo as mãos.
A meio do corso cai um lepidóptero:
sinto-lhe as pás hidráulicas revolvendo
os braços e a luz da tarde. E então, vejo-te.
Estás atenta aos pássaros, mas eu assobio
e no engano gordo que provoco olhas para o lado.
Dou-te um choque. Dás-me um choque. Chocamos.

30.6.15



São rosas que procuro no teu rosto,
flores que não há em terra ardente;
em vulcão escarpado não há dores
como aquela que me dás em frente ao rio.
Sob os escombros nasce uma serpente
que se enrola ao pescoço, que se cola às mãos
e morde as dunas enquanto nas dunas se agita
uma pintura abstrata que se inclina ao toque.
Dá-me a tua boca, não os dentes, meu amor,
o metálico caminhar ao lado do vento
que sacode o silêncio do dorso das planícies.
Estende a barriga através dos campos,
semeia a gloriosa linha que te faz sentar
na pose curvilínea do crepúsculo.

17.6.15



Tenho tido uma vida crocante, frágil,
de intensas recidivas que desprezaram o hábito,
de sombras e de lamentos atrelados ao corpo,
e só me resta condenar-me a trabalhos esforçados.

Bebi quanto licor a tua pele destilava
em noites puerilmente perdidas a jogar às asas.
Dos teus cabelos irados recebi o troco
de uma plataforma de entendimento que se afundou.

O sal é ácido, é o ácido da tua voz vogando
entre mil palavras solidamente arremessadas
para cima de mim, ácido como um ditado.

Vivi muito tempo num quadrado de sangue
onde só entravam princesas adormecidas
e ogres velhos. A umas e a outros, desejei-lhes o véu.