22.12.25

prometo aquiescer

a teu contento

nas graves pautas pautar

por notas ínfimas de agudos

em harmonia intensa

com o desastre

a fortaleza que defende

o inverno bruto

claudica à primeira luz

que na tua pele sobeja

será música sonolenta

a pianola dos dentes

de língua afiada

e feia

mas por ti e por teus ramos

permito-me a inconstância

ao menos saberei

como é salgado o mar

e azul a noite

e feita de pelúcia a previdência

3.5.25

 baixa-te: as árvores estendem os seus ramos

à chuva e aos relâmpagos

há ecos espantados de rolas concelhias

as diáfanas aporias

tradicionalmente atentas

nas litanias da aldeia

os frascos cobrem-se de pó

o que fica nos dedos abandonado pelo tempo

informe e lesto tempo

sem tempo nem formalidades

um fogo peripatético que assusta

doravante reputada arquitectura

no seu contrário corpo que ocupa

no tecico capilar das plantas

apenas o quadrado de um concílio

o que é fugaz e incorpóreo

nas palavras sages

do silêncio

um voo que não regressa

a fuga em frente prometida na fronteira

depois de incendiarem os indícios 

e as origens

o fim da permanência

e o início

de algo que nos convoca para o mundo



12.1.25

 És uma interrogação decadente sem zeros

À esquerda ou vírus de fim de século a tomar-nos

As mãos por parvos em andaimes descalços,

Sem gruas para levantar do chão o grão diário

Das bancadas, para solicitar de antemão o girino

A água lenta das guerras. Façamos a pausa do café

Parecer a eternidade. Vou-te falar dos poemas

Que nunca li e dos poetas que não lerei nem que nunca

Levei a sério, dos prémios à canzana ladrando à consoada

E se me deres do teu tempo eu dar-te-ei o vidro da minha alma,

A profunda escuridão que habita em mim.

23.11.19


Encontro-me com o ar frio da noite
junto à escola primária onde fumei
o primeiro ensinamento. À memória
vem pulsar o tempo das algibeiras,
o recreio dramático, encenado de improviso,
e a grande frustração de ser pequeno.
Aqui, hoje, mirando o edifício,
que medo me sentiu dentro do estômago
solene das reguadas? Punição
que sempre lamentei ter-me extinguido.
Revejo os corações postos de parte,
contra a parede, os rufias das gáveas
que haviam de abandonar mais cedo o barco.
E a fúria incompetente em sobressalto.
A professora espúria menos humana
que atacava o alfabeto fraco e sonolento,
os rios e os continentes até ao trauma
que construiu em mim um desistente.
As nódoas negras das crianças como países,
de mão estendida não para cumprimentos,
mas para descarregar o lastro. 
Uma espécie de trabalho, a violência.
Aos ossos brancos que hoje lhe escorregam,
eu digo: lamento ter vivido
na infância. Perdoo-lhe, não lhe perdoo,
o incumprimento.

30.7.18

Tenho frio.
As mesas escutam o meu pesar.
Sobram papéis
depois da praga.
Remessas de lapiseiras, caixas
cujo teor circunstancial
é desvendado, em rigor,
por caixas ainda maiores.
Tenho os pulmões entristecidos.
Cosidos à mão.
Um tubo dos pés à cabeça
que me mantém vertical.
Entornaram cadeiras
na clareira brava.
Panfletos
ignoram sucessivas gerações.
Estamos perante
um coágulo. Imagino
que seja preciso
evacuar todos os livros.